29/12/2025

Impacto das mudanças climáticas no setor elétrico brasileiro

Impacto das mudanças climáticas no setor elétrico brasileiro

Um estudo do Ministério de Minas e Energia desenhou um cenário para entender como as ameaças climáticas podem afetar a estrutura de fornecimento de energia do país

(Imagem: Freepik)

Há algum tempo os eventos climáticos extremos se tornaram mais comuns em todo o mundo. Dessa forma, deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental, tornando-se um fator estratégico no planejamento de muitos setores considerados essenciais. É o caso do impacto das mudanças climáticas no setor elétrico brasileiro.

Realizado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), a pesquisa tenta prever como a variabilidade climática pode alterar a matriz elétrica nacional e a operação do SIN. Nos últimos dias, São Paulo foi mais uma vez afetada por uma tempestade que ocasionou a derrubada de árvores. A consequência? Mais de 2 milhões de clientes afetados e unidades sem energia por mais de 4 dias.

Não é a primeira vez que a principal cidade do país vive essa situação, evidenciando que o impacto das mudanças climáticas no setor elétrico brasileiro já é uma realidade. A situação é tão grave que gerou uma disputa entre a Enel e a prefeitura da capital paulista, que pede a não renovação da concessão de energia da empresa.

Recentemente, a própria Aneel desenvolveu novas regras referentes aos direitos do consumidor de energia. Foi uma medida da Agência depois do aumento dessas ocorrências, que se tornaram mais comuns nos últimos anos.

Diagnóstico do impacto das mudanças climáticas no setor elétrico

De acordo com o documento, são três os principais fatores a serem monitorados em relação a esses incidentes.

Recursos hídricos sob pressão

Após a análise de modelos climáticos, houve uma tendência de redução das vazões médias nos subsistemas Sudeste, Norte e Nordeste — justamente onde se concentram os maiores reservatórios do país. Essa diminuição compromete a segurança hidroenergética, enquanto o Sul apresenta aumento de afluências em regiões com menor capacidade de regularização.

Ou seja, pode ser que haja uma maior dependência das usinas térmicas para garantir segurança, especialmente porque reservatórios que antes eram vistos como garantidores da confiabilidade se tornem mais vulneráveis.

Fontes renováveis variáveis

Eólicas e solares não apresentam mudanças sistêmicas nos fatores de capacidade médios.

Contudo, há forte incerteza regional, já que a elevação da temperatura tende a reduzir a eficiência dos módulos fotovoltaicos, neutralizando ganhos de irradiação. Isso reforça a necessidade de diversificação tecnológica e de mecanismos de flexibilidade.

O grande crescimento da geração desses modais ainda cria o desafio do fluxo reverso. Por vezes, a geração é tão mais alta, que gera uma situação conhecida como constrained-off: os empreendimentos deixam de gerar energia porque limitações técnicas e operacionais impedem o seu uso.

Demanda elétrica em cenários de calor extremo

O aumento da temperatura intensifica a demanda por resfriamento.

Projeções do estudo apontam acréscimo de 3% a 4% na demanda de energia nos meses mais quentes, chegando a picos de 6% em cenários de altas emissões. O risco é a coincidência desses picos com períodos de menor vazão, criando uma sobreposição crítica entre oferta limitada e consumo elevado.

Quando isso acontece, na infraestrutura energética atual, há uma pressão sobre os preços de energia.

Estratégias de planejamento da matriz elétrica

O estudo analisou três abordagens distintas para o futuro da matriz elétrica brasileira, considerando o impacto das mudanças climáticas e a necessidade de garantir confiabilidade e sustentabilidade.

Vale ressaltar que o impacto das mudanças climáticas no setor energético ainda pode gerar outras consequências. O aumento do custo da energia afeta mais a determinados setores da economia e a segurança alimentar pode levar a quebras de safra. Este estudo planeja três cenários:

Caso de referência

O portfólio de geração é construído sem levar em conta antecipadamente os efeitos das mudanças climáticas. Essa estratégia reflete a prática tradicional de planejamento, baseada em séries históricas e em políticas operativas já estabelecidas.

Embora seja o caminho mais simples, os resultados mostram que, no longo prazo, essa postura pode gerar custos operativos mais elevados e aumentar o risco de violação dos critérios de suprimento, tornando o sistema mais vulnerável a períodos críticos.

Casos alternativos

Representam uma estratégia de adaptação planejada.

Nele, os portfólios de geração são construídos a partir de cenários climáticos projetados, incorporando o impacto das mudanças climáticas no setor de energia sobre recursos hídricos, irradiação solar e regimes de vento.

Os resultados indicam que essa estratégia pode reduzir os custos de operação em até 13% e gerar uma queda média de 7% nas tarifas, mesmo em condições climáticas adversas. A expansão da capacidade instalada ainda pode chegar a 31 GW adicionais, garantindo maior robustez ao sistema.

Casos de descarbonização

Essa estratégia prevê o descomissionamento gradual de usinas térmicas à medida que seus contratos expiram, substituindo-as por fontes renováveis e tecnologias de armazenamento em larga escala.

O estudo mostra que essa transição é tecnicamente viável, mas exige investimentos adicionais — cerca de 121 GW em novas capacidades, com destaque para sistemas de armazenamento de energia.

O custo total aumentaria em aproximadamente 70% em relação ao caso de referência, alcançando R$ 144 bilhões, mas o sistema resultante apresenta custos operacionais menores e maior sustentabilidade.

O trade-off é claro: a descarbonização reduz impactos ambientais e fortalece a resiliência de longo prazo, mas demanda coordenação regulatória e mecanismos de financiamento robustos para viabilizar os investimentos.

Recomendações para um sistema resiliente

Entre as orientações para construir um sistema resiliente ao impacto das mudanças climáticas, encontram-se:

Ajustes no planejamento

– Incorporar regimes climáticos distintos e suas transições;

– Revisitar continuamente critérios de confiabilidade e segurança energética;

– Refinar dados de bacias hidrográficas e avaliar a competição pelo uso da água.

Investimentos estratégicos

– Considerar recursos do lado da demanda como alternativa à expansão da geração.

– Aumentar resiliência da infraestrutura com novos mecanismos de remuneração de serviços como capacidade e flexibilidade.

Planejar avaliando cenários

Planejar o impacto das mudanças climáticas sem considerar cenários climáticos resulta em custos mais altos e riscos de suprimento no setor energético. A transição energética para uma matriz neutra em emissões é possível, mas demanda coordenação regulatória e investimentos robustos. O desafio está em equilibrar sustentabilidade, confiabilidade e custo em um futuro climático incerto.

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