27/07/2026

Como o Brasil está lidando com o excesso de energia elétrica?

Como o Brasil está lidando com o excesso de energia elétrica?

Em junho, país acionou pela primeira vez plano para gerir excedentes de energia; situação, se bem planejada, pode se tornar a solução de outros problemas vividos pelo país

(Imagem: Magnific)

Para aqueles que viveram os apagões do início dos anos 2000, é curioso entender que a crise atual do Brasil envolve mais o excesso de energia elétrica do que a sua falta. Chama a atenção que, em 2020 e 2021, o país viveu outras dificuldades semelhantes aquelas do início do século pela falta de disponibilidade de água para um acionamento seguro das hidrelétricas.

A realidade atual agora envolve o excesso de energia elétrica produzida a partir da geração distribuída. No início de junho, o país adotou pela primeira vez o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede. Aprovado pela Aneel em 2025, a medida deve ser adotada de forma excepcional para garantir a estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) em meio à nova realidade.

De acordo com o ONS, “foi solicitado o gerenciamento de 1.000 MW entre 10 e 14 horas. A medida foi indicada para poder equilibrar a alta geração de MMGD, combinada a uma carga menor por conta do final de semana prolongado em função do feriado de Corpus Christi”. Ou seja, houve a necessidade de equilibrar a alta geração das solares em meio a uma carga menor de energia.

Excesso de energia elétrica ou desperdício?

Uma das questões que envolve a adoção dessas medidas: não se trata de um desperdício de energia este gerenciamento? Isso porque o excesso de energia elétrica nada mais é do que a incapacidade dos sistemas de fazer o armazenamento daquilo que é produzido pelas fontes intermitentes.

Uma infraestrutura adequada seria o suficiente para garantir que a geração distribuída absorvesse os picos de produção durante a maior incidência solar para o uso futuro durante a intermitência, evitando o constrained-off. A mesma lógica se aplicaria às usinas eólicas, aproveitando os bons momentos e assegurando a energia nos períodos de escassez.

A Absolar se manifestou afirmando que este “desequilíbrio” não é reflexo da expansão de apenas uma fonte, tecnologia ou modalidade de geração, mas da falta de políticas públicas. Em entrevista ao Broadcast, o CEO da entidade, Rodrigo Sauaia, apontou três gargalos que precisam ser atacados: a tributação de mais de 70% sobre os sistemas de armazenamento de energia, a falta de leilões de Reserva de Capacidade para Armazenamento e o atraso estrutural na modernização do setor.

A Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine) já afirmou que a exportação de energia seria um caminho para evitar que o excesso de energia elétrica se torne um problema. A entidade estima que o prejuízo gerado aos ao segmento de renováveis é de R$ 3,5 bilhões. Afinal de contas, trata-se de produção de energia desperdiçada e que não gera ganhos.

Uma solução para o setor como um todo

Com uma matriz energética fortemente influenciada pelas renováveis, o Brasil é um país que ainda depende das usinas hidrelétricas para assegurar a continuidade e a estabilidade do fornecimento de energia. Em um período de transição, o excesso de energia elétrica não deveria ser um problema, sobretudo para um país que, muitas vezes, ainda precisa acionar as usinas térmicas.

Embora tragam a mesma confiabilidade, esse modal energético é reconhecidamente mais caro e poluente. Ou seja, o problema que o país vive com o curtailment ou constrained-off das usinas solares nada mais é do que a solução para outra dificuldade já reconhecida do SIN.

É claro que, para garantir a segurança e a eficiência do sistema como um todo, o armazenamento de energia das renováveis precisa ser estudado e planejado de forma efetiva. Trata-se de garantir a eficiência dessa tecnologia e a capacidade de distribuição e remanejamento dentro dos subsistemas, já que há regiões do país com uma maior presença desses modais.

O acionamento do Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede é uma medida necessária agora, mas espera-se que não seja no futuro. Para isso, é preciso que ocorram aportes, evolução da regulação e outras medidas que façam com que o excesso de energia elétrica se torne mais lucro para os parques e a capacidade de garantir um abastecimento seguro e efetivo.

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