27/10/2025

O que é uma usina virtual de energia?

O que é uma usina virtual de energia?

Grupo de consumidores que atua de forma coordenada visa reproduzir a operação de uma usina em um processo que ainda precisa de regulamentação no Brasil

(Imagem: Freepik)

Diante do crescimento expressivo da geração distribuída, começam a aparecer os primeiros movimentos relacionados à criação da figura da usina virtual de energia. A ideia é reunir produtores, consumidores e mecanismos de armazenamento de energia em um mesmo ecossistema para que atuem em conjunto.

Imagine, por exemplo, um condomínio no qual todas as unidades contam com placas solares. A intenção é construir uma rede que permita a geração de energia, seu armazenamento e posterior distribuição no período de intermitência – ou seja, à noite.

Na prática, este grupo atuaria de forma coordenada, como uma espécie de usina virtual de energia. Eles não têm um empreendimento específico, mas apenas otimizam a forma como cada ativo conectado é utilizado.

O departamento de energia dos Estados Unidos estima que já existam cerca de 30-60 GW de capacidade instalada no país. A perspectiva é que este movimento possa ser praticamente triplicado até 2030, atingindo uma capacidade que varie de 80 a 160 GW.

Descentralização: uma preocupação

Embora a operação de uma usina virtual de energia já esteja presente em outros países, como nos Estados Unidos, há um longo processo regulatório e de investimento em infraestrutura para que essa operação possa ser, de fato, uma realidade no Brasil, com segurança jurídica e regras claras.

Nos últimos anos, o crescimento da geração de fontes intermitentes – como a solar e a eólica – passou a gerar dificuldades na gestão do Sistema Integrado Nacional, o SIN. Uma dessas barreiras envolve o chamado fluxo reverso, fruto da descentralização da geração de energia no país.

Como seu nome já sugere, trata-se do movimento não planejado, indesejado ou acima da capacidade de energia em uma direção contrária à direção original de um sistema. Ou seja, em redes elétricas, ocorre quando a geração distribuída, como a energia solar, produz mais energia do que a consumida localmente, enviando o excesso de volta à rede principal.

Ocorre que, apesar do benefício de ter um aumento na geração de energia limpa, a infraestrutura ainda não evoluiu a ponto de sustentar esse movimento em sentido contrário. E suas consequências podem ser graves: danos a equipamentos das distribuidoras de energia, que podem causar interrupção de fornecimento em áreas, além de instabilidade da rede e perda de eficiência.

Usina virtual de energia: um futuro mais digital

É fato que as movimentações do setor energético seguem tendências de diversos outros setores produtivos. E uma delas é necessária: a digitalização do setor.

As usinas digitais são apenas uma consequência deste processo, com a possibilidade de criação de unidades menores, descentralizadas e capazes de suprir a necessidade de condomínios ou operações específicas. Apesar destes benefícios, ainda não há, no Brasil, definições claras a esse respeito.

Em 2021, a Aneel abriu Consulta Pública sobre o tema, visando “obter subsídios para a elaboração de propostas de modelos regulatórios para a inserção de recursos energéticos distribuídos, incluindo resposta da demanda, usinas virtuais e microrredes”.

A partir das sugestões recebidas, a Aneel divulgou em seu site uma nota na qual constatava que a “inserção de recursos energéticos distribuídos já é uma realidade no país”. Entre as possibilidades mencionadas, estão sistemas de armazenamento distribuído, veículos elétricos, microrredes e a figura da usina virtual de energia.

Entretanto, a agência afirma que esses novos elementos “demandam uma preparação do sistema de distribuição para operar nessas condições com segurança, confiabilidade e menor custo para os consumidores”. Um caminho para isso é a obrigatoriedade ou necessidade de compra de baterias para energia solar, evitando que um grande volume de energia volte aos sistemas no sentido reverso.

Para isso, houve a recomendação de desenvolver um plano estratégico para adaptação da regulamentação vigente, visando “viabilizar a evolução do sistema de distribuição de forma sustentável, tendo em vista os desafios de novos investimentos para a modernização da rede, com impactos tarifários, e benefícios esperados no médio e longo prazo”.

Portanto, apesar dos potenciais existentes e da necessidade de aprimoramento de mecanismos que beneficiem a transição energética, o caminho regulatório é importante para dar segurança jurídica a quem fizer parte das usinas virtuais de energia e também não comprometer o fornecimento para aqueles que estiverem fora deste novo sistema.

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