18/09/2025

Desafios e oportunidades para as hidrelétricas: o papel estratégico na nova matriz elétrica brasileira

Desafios e oportunidades para as hidrelétricas: o papel estratégico na nova matriz elétrica brasileira

Novo estudo da EPE apresenta oportunidades de construção de novos empreendimentos e de aumento da potência dos já existentes, mantendo a relevância do modal na infraestrutura energética do país

(Imagem: Pexels)

A expansão do Sistema Interligado Nacional (SIN) tem sido impulsionada por fontes renováveis intermitentes como a solar fotovoltaica, a eólica e pela crescente geração distribuída. Embora positivo para a diversificação da matriz, esse movimento trouxe novos desafios e oportunidades para as hidrelétricas e para a operação do SIN, sobretudo na flexibilidade e na capacidade de armazenamento.

Nesse contexto de expansão de solares e eólicas, as usinas hidrelétricas, que por décadas foram a base da geração elétrica no Brasil, enfrentam uma nova realidade. As últimas hidrelétricas construídas não contam com grandes reservatórios, o que as torna mais vulneráveis às variações climáticas e escassez de água, limitando o seu impacto na segurança do abastecimento.

Para contextualizar os desafios e oportunidades para as hidrelétricas, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) fez um estudo que traz um olhar aprofundado sobre esse modal. Apesar dos obstáculos, há oportunidades para requalificar e reposicionar as UHEs no sistema energético do país, gerando benefícios para todos os envolvidos nesse contexto de transição energética.

Os desafios para as hidrelétricas

Na segunda colocação em capacidade instalada de hidreletricidade do mundo, a expansão hidrelétrica no Brasil enfrenta uma série de barreiras que podem ser divididas em quatro grupos: técnicas, econômicas, regulatórias e socioambientais. Nesse contexto, os principais desafios identificados pela EPE incluem:

– Complexidade socioambiental: cerca de 77% do potencial hidrelétrico inventariado interfere em áreas protegidas, como Unidades de Conservação, Terras Indígenas e Quilombolas.

– Baixo interesse de empreendedores: apenas 33% dos eixos disponíveis têm estudos em andamento, e muitos enfrentam paralisações por inviabilidade ambiental, econômica ou regulatória.

– Judicialização e resistência local: o licenciamento ambiental tornou-se um processo complexo, com forte resistência de comunidades e frequente judicialização. Os licenciamentos de PCHs e CGHs, por exemplo, levam em média 9 anos no país – e estamos falando de empreendimentos de menor impacto do que grandes usinas hidrelétricas.

– Altos custos de financiamento e construção: a implantação de novas UHEs exige investimentos elevados, especialmente em regiões remotas como a Amazônia. Ou seja, os projetos envolvem desafios complexos também de logística.

– Desafios regulatórios: a remuneração por atributos como potência e flexibilidade ainda não está plenamente incorporada ao modelo de negócios, dificultando a viabilidade econômica dos projetos.

Esses fatores explicam por que, entre 2017 e 2023, apenas duas hidrelétricas foram contratadas em leilões de energia, somando apenas 98 MW.

As oportunidades

Apesar desses desafios, o estudo da EPE também destaca diversas possibilidades para que as hidrelétricas continuem desempenhando um papel estratégico na matriz elétrica brasileira. Entre eles:

Repotenciação e modernização de UHEs existentes – Com mais de 100 GW de capacidade instalada, o parque hidrelétrico brasileiro é antigo — a maioria das usinas tem mais de 25 anos. A repotenciação e a modernização podem aumentar a eficiência e a potência instalada, reduzir tempos de indisponibilidade, prolongar a vida útil dos ativos, deduzir custos operacionais do SIN.

Estima-se que entre 3 e 11 GW adicionais podem ser obtidos apenas com melhorias nas usinas já existentes. Itaipu, por exemplo, já mencionou a possibilidade de ampliar o número de turbinas.

Implantação de usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs) – As UHRs são uma tecnologia recente de armazenamento, com alta flexibilidade e capacidade de atender aos horários de ponta. Elas podem:

– Suportar a expansão das fontes renováveis variáveis;

– Prestar serviços ancilares como controle de frequência;

– Garantir estabilidade e segurança energética;

Embora ainda enfrentem desafios regulatórios e técnicos, as UHRs têm maior alternativa de locais e podem evitar áreas ambientalmente sensíveis, tornando sua implantação e operação mais ágil e simples.

Novo papel das hidrelétricas na operação do SIN – Com a crescente penetração de fontes intermitentes e da geração distribuída, as UHEs podem ser reconfiguradas para atender aos requisitos de potência e flexibilidade, preservar níveis de reservatórios com estratégias mais inteligentes e contribuir com serviços de suporte à confiabilidade do sistema

Desafios e oportunidades para as hidrelétricas

Os desafios e as oportunidades para as hidrelétricas revelam um cenário de transição e readequação do sistema energético brasileiro. As UHEs continuam a ser ativos fundamentais — especialmente se forem modernizadas e reposicionadas para atender às novas demandas do sistema. Elas são mais baratas e trazem a mesma segurança ao ecossistema do que as usinas térmicas.

Para o setor energético em um país que sempre esteve na vanguarda das hidrelétricas, isso representa uma oportunidade de investimento estratégico, com foco em eficiência, flexibilidade e segurança. Para o Brasil, é mais uma chance de aproveitar seu vasto potencial hidrelétrico de forma mais inteligente e alinhada aos desafios da transição energética.

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